O governo Federal vem fazendo uma campanha maciça na mídia convocando os brasileiros para se tornarem professores (não sei se isso é possível), mas em todo caso este é o objetivo do governo brasileiro que pretende transformar o país em uma potencia e sabe que isso só será possível melhorando os índices educacionais. Mas será que vale a pena ser professor nos dias de hoje?
Este ano estou completando 25 anos ininterruptos de sala de aula e lembro (ainda tenho boa memória) que há alguns anos atrás quando ouvia relatos de colegas meus que não admitiam de forma alguma que seus filhos se tornassem professores como eles. Eu ficava indignado, pois não aceitava que esses mesmos colegas fossem os primeiros a desprestigiarem nossa profissão. Por outro lado todas as vezes que minha filha Larissa falava que gostaria de ser professora, eu ficava alegre e lisonjeado por saber que ela estava seguindo meus passos e de minha esposa também professora, isso significava que eu conseguia inspirá-la a esta nobre função.
Hoje, não muito tempo depois, confesso que tenho ficado preocupado por saber que ela ainda mantém esse desejo. E ai vem a pergunta: será que vale a pena estimular minha filha ser professora? Será que não é melhor desestimulá-la?
Vejamos as razoes de minha preocupação:
1. Quando comecei a lecionar, ainda percebia certo respeito para com a figura do professor. O professor não era um indivíduo que não tinha tido sucesso em outras áreas e por isso tornou-se professor. Não, eu era visto como alguém que tinha dom para desempenhar este papel e fazia com muito afeto.
2. A direção das escolas via esta (a própria escola) como um meio de transformar a situação de várias crianças e o seu propósito maior era o de formar cidadãos preparados para o mundo, tanto academicamente como no aspecto moral. Acreditava-se e lutava-se por isso (não apenas um slogan de outdoor). Hoje as escolas, principalmente as particulares, na sua maioria, veem a escola como uma fonte de enriquecimento dos empresários da educação e os pais, responsáveis e alunos como clientes, sendo assim, estes sempre têm a razão. Os professores são sufocados e pressionados a serem apenas bons atendentes destes seus “patrões”. Algumas situações são absurdas. Uma colega professora percebeu que o aluno estava colando e retirou-lhe a prova e o levou a coordenação. O que esperaríamos? Que o aluno ficasse sem nota e fosse duramente repreendido (em minha opinião, poderia muito bem ser expulso para servir de exemplo aos demais. Não era assim antes?), mas o que aconteceu? A professora, depois que a família veio pressionar a direção da escola, teve quase que pedir desculpas ao aluno por tê-lo constrangido ao retirar-lhe a prova... é um absurdo ou não?
3. Os pais, responsáveis pela educação dos filhos, cada vez mais querem deixar essa responsabilidade nas mãos dos professores, e ao mesmo tempo quando nós professores tomamos atitudes que cremos ser boas para o desenvolvimento desses mesmos filhos, somos tachados de tacanhos e outros adjetivos muitas vezes impublicáveis. Muitas vezes, acham que seus filhos são os donos da verdade e acreditam em tudo o que os filhos relatam em casa, sem ir à escola conversar com o professor para saber que outra versão o caso apresenta.
4. O que dizer da pedagogia? Entrando na onda das “escolas-comércio”, são cada vez mais frouxas e permissivas, de modo que os alunos são cada vez mais ousados e mal educados, deixando nós, professores, à mercê de um sistema maléfico. O que dizer da psicologia educacional, não se pode beijar ou abraçar uma criança: cuidado professor aí vem processo, pode ser assédio sexual (onde fica a tal da afetividade, tão exigida dos professores). Não se pode dá uma bronca em público, mesmo quando o aluno apronta na frente de todos, cuidado professor, lá vem processo, o aluno não pode ser constrangido. Já tive alunos que me viam como pai e às vezes me davam um abraço tão apertado que a coluna reclamava. Ficava meio sem graça. Até que ponto poderia refletir tal afeto, sem “correr riscos”??? O professor sempre é visto de forma suspeita!
5. E o salário? Na maioria das vezes alguns professores têm vergonha de dizer quanto ganham, mas eu sei que isso não é “privilégio” só dos professores – acho que apenas os políticos tem um salário “digno”em nosso país. Há escolas que até remuneram muito bem, mas o professor é obrigado a trabalhar em um ambiente em que todos mandam ... os pais bons ou maus pagadores mandam. Os diretores mandam. Os alunos, isso mesmo, mandam e até quem sabe o copeiro manda, mas o professor o que faz? OBEDECE E SE RESIGNA AO SISTEMA. Será que vale a pena ganhar bem e ser um mero subalterno ao invés de um instrumento de mudança na sociedade?
Qual o resultado de tudo isso? A mídia vem demonstrando... professores espancados por alunos e pais e quantos casos de professores surtando. A pergunta continua a procurar a resposta. Vale a pena ser professor no Brasil? Na Coreia é certo que vale! Lá uma família para ter prestígio tem que ter um professor. Pense nisso!
PS: como sugestão leia a visão da família no artigo de Cláudio de Moura Castro sob o título: O Sputnik chinês e a educação. – Revista Veja de 9 de fevereiro de 2011.
Um forte abraço
Caro amigo!
ResponderExcluirConcordo plenamente com suas idéias e preocupações a respeito de nossa profissão.
Também gostaria de ver o professor ter de fato valorização por todo trabalho que fazemos em formar outras profissões.
Gostei de seu blog e irei acompanhar seus comentários sempre que possível.
Profa. Maysa Bentes
Querido Prof.Célio
ResponderExcluirEste seus questionamentos infelizmente faz parte do cotidiano de nós professores. E quando uma criança diz que também que compartilhar da mesma profissão do pai, é algo que merece uma atenção!!!
(O que na verdade nao deveria!!)
A nossa figura diante dos alunos muitas das vezes é relegada e os próprios alunos, inclusive os mais novos,sabem de como os professores são esquecidos (para não dizer outra coisa), ou seja, foi o tempo que nos tinhamos a figura de PAIZÃO!!
Boa pedida teu blog Célio.Parabéns!!!
Abraço de um professor que há alguns anos atrás foi seu aluno e que hoje trabalham juntos.
Prof. George Marim
Celião,
ResponderExcluirparabéns pelo blog e pelo post.
Infelizmente tenho que concordar plenamente com tudo o que você escreveu. O "infelizmente" refere-se ao fato de que eu não gostaria que essa fosse a realidade da educação brasileira.
Saudações daquele que te admira
Ivo Silva